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Por uma leitura crítica da comunicação

10/03/2021 13:35:02

Apesar dos perigos, as redes sociais podem se constituir numa poderosa ferramenta capaz de levar informações diferenciadas daquelas produzidas pelos veículos tradicionais 

Redes sociais são uma forma de mídia alternativa e potencialmente comunitária possibilita o estabelecimento de “novas esferas públicas alternativas”  (Foto: Rytara Tsunaka/Pexels)
Redes sociais são uma forma de mídia alternativa e potencialmente comunitária possibilita o estabelecimento de “novas esferas públicas alternativas” (Foto: Rytara Tsunaka/Pexels)


Robson Sávio Reis Souza

Nas décadas de 1970 e 1980, a Igreja Católica, através da União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC), investiu numa metodologia denominada Leitura Crítica da Comunicação (LCC). Essa metodologia tinha como base os princípios cristãos, a ética e a cidadania. Eram oferecidos cursos de comunicação de curta duração a agentes pastorais, religiosos e estudantes secundaristas. O Programa LCC se concentrava na análise dos excessos da televisão, como a violência, a exploração do sexo, a estereotipagem de grupos sociais. Com o auxílio de cursos práticos de produção em comunicação, o objetivo da LCC era que os estudantes do método tomassem consciência da contradição entre os seus valores e os valores propostos pela mídia.

Recentemente, a organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras denunciou a situação de concentração de poder midiático existente no Brasil. Definindo o quadro brasileiro como o “país dos 30 Berlusconi”, a ONG alertou para o perigo que sofre a independência da informação, através do poder concentrado dos grandes grupos de mídia no Brasil. Segundo a ONG, um dos problemas endêmicos do setor da informação no Brasil é a figura do magnata da imprensa, que “está na origem da grande dependência da mídia em relação aos centros [principalmente estrangeiros] de poder”. ”

Ora, para contrapor um discurso quase hegemônico produzido pela chamada grande mídia ou a mídia empresarial, seja nos programas de entretenimento ou nos jornalísticos, cujas fontes são as grandes agências de notícias que ditam normas de comportamento e modos de vida, é preciso criar espaços novos, dialógicos, plurais, de contrainformação e que possibilitem a produção de novas narrativas, interpretações e interações entre os cidadãos.

Há uma nova realidade: a internet e as redes sociais vêm se constituindo como espaços mais democráticos, horizontais e plurais, capazes de suportar a diversidade criadora dos cidadãos e de coletivos e, mais que isso, vocalizar as preferências e as múltiplas vozes que são ocultadas pela mídia empresarial.

Antes éramos apenas receptores de mensagens; agora podemos ser produtores, emissores e também manipularmos conteúdos para transmiti-los e/ou retransmiti-los. Somos atores comunicacionais. Mas, esse novo posicionamento do cidadão em relação à comunicação não impede o fenômeno da manipulação de massas e a passividade imobilizadora frente a uma avalanche informacional. Podemos alterar, para o bem ou para o mal, toda a compreensão dos fatos divulgados pela mídia empresarial. Mas, podemos continuar como sujeitos passivos, impotentes e, inclusive, replicadores de comunicação duvidosa, como por exemplo, as fake news, que recebemos em doses cavalares.

Não podemos desconsiderar que as redes sociais se transformaram numa espécie de “coliseu romano do século XXI”, onde se matam reputações e disseminam-se os discursos de ódio. Mais do que nunca se faz necessária a formação dos cidadãos à leitura crítica da comunicação.

Apesar dos perigos, as redes sociais podem se constituir, progressivamente, numa poderosa ferramenta capaz de levar informações diferenciadas daquelas produzidas pelos veículos tradicionais de comunicação. Ademais, podem problematizar, questionar e aprofundar as notícias veiculadas pelos grandes meios; mostrar quais os interesses ocultos na divulgação das informações e criar condições para que a mídia empresarial se reposicione em termos de única fonte capaz de determinar verdades pretensiosamente uníssonas.

A utilização das redes sociais como uma forma de mídia alternativa e potencialmente comunitária possibilita o estabelecimento de “novas esferas públicas alternativas” baseadas no diálogo e na superação de estereótipos, preconceitos e tabus, uma vez que o processo de vinculação comunitária está relacionado ao resgate da memória coletiva, sem interesse econômico.

Porém, como produtores de informação devemos ter uma apurada consciência ética e política do nosso papel social, político, religioso…

Portanto, antes de comunicadores precisamos ser bons receptores, leitores e avaliadores da comunicação que recebemos ininterruptamente. Analisar criteriosamente os conteúdos recebidos, checar as fontes, pesquisar as origens das mensagens e quais interesses motivam determinados conteúdos, principalmente conteúdos “sensíveis”, como temas morais, religiosos, etc. torna-se fundamental para o estabelecimento de novos modos de comunicação.

Nada mais importante que retomarmos, como parte de um processo de educação política e à cidadania, os princípios que forjaram, no passado, o projeto da Leitura Crítica da Comunicação.

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