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O que a nova pesquisa Datafolha aponta?

06/04/2020 10:55:24

Enquanto Bolsonaro gozar de apoio dos empresários, banqueiros, agronegócio e da coalizão militar, ele não sairá do poder, mesmo com sua sanha genocida

Presidente continua respaldado pelos segmentos que não têm compromisso com a democracia. Foto: Marcos Corrêa/PR
Presidente continua respaldado pelos segmentos que não têm compromisso com a democracia. Foto: Marcos Corrêa/PR

 

Robson Sávio Reis

Nesse domingo (05/04) o instituto Datafolha divulgou uma pesquisa nacional que, em resumo, aponta: 59% dos brasileiros são contra a renúncia de Bolsonaro. Outros 37% desejam sua renúncia em meio à pandemia de coronavírus. Apesar de o levantamento apontar que apenas 33% dos ouvidos consideram a gestão da crise sanitária pelo presidente da República como boa ou ótima, 52% creem que ele tem condições de seguir liderando o país. Para 44%, Bolsonaro perdeu tais condições, e 4% não souberam responder.

Essa pesquisa sinaliza, entre outras questões, que a maioria da população continua teleguiada por sentimentos dúbios: discorda da gestão da crise do coronavírus pelo chefe do Executivo mas, saturada pela disputa político-eleitoral e tomada pelo medo com o avanço da pandemia, paradoxalmente, rejeita o afastamento de Bolsonaro.

É importante destacar: em tempos de insegurança e medo, o sentimento de apego ao que existe, por mais precário que seja, prevalece em relação às incertezas que as mudanças provocam no imaginário das pessoas. Para significativa parte da população, o sentimento é mais ou menos esse: quando o barco está a afundar, sem a presença de alguém que inspire confiança, é melhor manter o comandante, por pior que ele seja, que aventurar-se noutras tentativas…

Mas, por detrás dos dados da pesquisa, que expressam o retrato de um momento, é preciso deixar claro: nas democracias liberais, onde o poder econômico precede o poder político e a soberania popular, não é o povo que decide a permanência ou não de um governante no poder.

Nessas democracias quem define o governo são as elites econômicas e seus parceiros.

Quando tais elites resolveram afastar Dilma Rousseff, sem crime de responsabilidade, o fizeram sem sobressaltos. Criaram um adorno de adesão social, utilizando em doses cavalares a manobra do discurso anticorrupção para mobilizar parte da população e justificar o golpe.

Quando Michel Temer foi pego nas negociatas com o dono da JBS, não adiantou mobilização social e rejeição do seu governo por 80% da população (como as pesquisas apontavam à época). Temer não foi afastado, porque as elites econômicas neoliberais que o colocaram no poder também sustentaram seu mandato até o final. E ele passou, garboso, a faixa presidencial para Bolsonaro.

Independente da opinião popular, enquanto Bolsonaro gozar de apoio dos empresários, banqueiros, agronegócio e, principalmente, da coalizão militar em seu entorno, nada acontecerá, não obstante sua sanha genocida.

Somente haverá mudança no comando da nação se, por motivos vindouros à medida que a crise sanitária esgarçar as relações sociais, as elites econômicas e os militares resolverem tirar o bode da sala.

Panelaços mostram o engajamento cívico da população; são importantes, mas não mudarão em nada o quadro atual.

Ademais, a postura cambiante dos setores progressistas não sinaliza caminhos seguros, nem à população, nem às elites.

Para quem tem consciência crítica e cívica é óbvio: o ultraneoliberalismo de Bolsonaro e Guedes é incapaz de enfrentar o caos econômico, político, social, humano, ambiental (no momento atual e, certamente, no pós-coronavírus). Mas, esse regime de uma “economia que mata” (Papa Francisco) continua respaldado pelos segmentos que não têm compromisso com a democracia, a vida, a justiça, a solidariedade e a paz. Mas, tem o controle dos poderes econômico e político (diretamente ou através de prepostos). E, por isso, ainda define o rumo das nossas vidas. Não à toa, a má vontade explícita de Paulo Guedes e equipe na liberação de recursos emergenciais para políticas públicas, a atenderem os pobres, e sua alegria faceira quando se trata de socorrer e ajudar empresários, banqueiros e os tubarões da economia.

Até quando?

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