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EUA: o demolidor da autonomia e da soberania das democracias

29/07/2019 15:41:27

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Por Robson Sávio
Num esclarecedor editorial no domingo (28), o jornalista G. Greenwald, do The Intercept Brasil, lembra que as grandes reportagens que revelaram as mais pérfidas sabotagens e golpes promovidos pelos EUA – um Estado que manipula, corrompe e destrói democracias e Estados democráticos mundo afora – só foram possíveis porque jornalistas e outros profissionais optaram pelo apreço à ética e à verdade, preferindo o risco da morte, do banimento e de toda a desgraça das perseguições à mesquinhez de simples papagaios de pirata dos donos das empresas de mídia – cujo único compromisso é a defesa intransigente de seus financiadores, apesar da lorota de credores das democracias.
É claro que atores e a conjuntura interna devem ser considerados na análise das rupturas democráticas. No caso brasileiro, é fundamental mapear os papéis desempenhados pela “elite do atraso”; as consequências da desagregação dos laços sociais causadas pela violência histórica e desigualdades estruturais; as castas que dominam o Estado e se consideram tutoras da democracia (sistema de Justiça e Forças Armadas), entre outros atores e fatores.
Mas, é fundamental destacar o papel dos EUA em mais essa aventura golpista que pariu um governo de extrema-direita, ultraliberal e antidemocrático.
Lembra-nos Greenwald que “grande parte do jornalismo mais importante produzido nas últimas décadas foi feito graças a fontes que obtiveram ilegalmente informações cruciais e as entregaram para jornalistas”.
E, apesar dos uivos de hienas antagonistas e seus financiadores secretos nestes tempos cabeludos, “o que fica registrado na história é o que foi revelado pelas reportagens, e não as ações das fontes que ajudaram na revelação”.
O fundador do Intercept Brasil passa a descrever alguns casos emblemáticos que deveriam ser estudados, obrigatoriamente, em todas as escolas democráticas pelo mundo.
“Em 1971, um ex-oficial do Pentágono, Daniel Ellsberg, roubou dezenas de milhares de páginas de documentos secretos, provando que o governo dos EUA estava mentindo para a população a respeito da guerra do Vietnã. Ellsberg entregou os documentos roubados ao jornal New York Times e depois para o Washington Post, e ambos produziram diversas reportagens com base nesses documentos. Se hoje em dia o nome de Ellsberg é lembrado, é como um herói que permitiu que essas mentiras oficiais do governo fossem expostas por jornalistas”.
Se os limpinhos e cheirosos do Manhattan Connection, de blogs e think tanks ultraliberais bancados por grana estadunidense produzissem jornalismo comprometido com a democracia, esses veículos e grupos de interesse seriam os primeiros a aderirem à narrativa do  Intercept, no episódio da “vaza jato”.
Continua Greenwald: “Durante a chamada Guerra ao Terror promovida pelos EUA e seus aliados desde os ataques de 11 de setembro de 2011, os maiores veículos de mídia do Ocidente – New York Times, Washington Post, NBC News, BBC, The Guardian – receberam repetidamente informações de fontes que violaram as leis para expor sérios crimes, como a prática de tortura, a existência de prisões secretas da CIA, e o sistema ilegal de vigilância da NSA. Ainda que algumas vozes autoritárias tenham clamado pela prisão dos jornalistas que revelaram esses segredos, o público de modo geral tratou essas reportagens como fundamentais, e todas essas revelações receberam o prêmio máximo do jornalismo, o Pulitzer”.
E tem mais um caso escabroso do governo dos EUA,  que se diz o grande defensor das democracias e dos direitos humanos, mas que usa técnicas medievais para defender os interesses dos verdadeiros donos daquela nação: as indústrias do petróleo, das armas, dos remédios e, agora, das mídias eletrônicas.
E Greenwald recorda mais um caso vergonhoso: “O mesmo vale para as reportagens, publicadas em 2013 e 2014, sobre o sistema secreto e massivo de espionagem na internet, afetando populações inteiras, por parte do governo dos EUA e seus aliados – reportagens essas que só foram possíveis graças a documentos obtidos ilegalmente pelo whistleblower da NSA, Edward Snowden. Dezenas de veículos de mídia no mundo todo – inclusive o grupo Globo, no Brasil – manifestaram a vontade de ter acesso aos documentos roubados para produzir reportagens sobre o sistema secreto de espionagem mantido pelo governo dos EUA, porque, em casos como esses, os jornalistas entendem que o que importa não são as ações ou motivações da fonte, mas o conteúdo revelado ao público”.
Vejam, caros leitores: as organizações Globo – criadas com a ajuda estratégica dos EUA durante a ditadura para defender e promover os interesses norte-americanos nessas plagas, que se postam acima das leis e dos poderes da República e que agora, tão vergonhosamente defendem com unhas e dentes as práticas ilegais “lavajatistas” –, já tiveram momentos de alinhamento a hackers para divulgar informações roubadas. Como a história é bela! Provavelmente, daqui a alguns anos, o grupo Globo lançará mais um patético editorial reconhecendo a verdade sobre a Lava Jato, como ocorreu anos depois em relação ao reconhecimento da ditadura no Brasil.
“Hoje em dia, o que é lembrado pela história sobre o assunto não são os julgamentos morais feitos pelo governo dos EUA e seus defensores acerca das ações de Snowden. O que importa – o que ficou registrado na história – é o que foi revelado pelas reportagens sobre as invasões de privacidade massivas e indiscriminada perpetradas em segredo pelas agências de segurança”, sentencia Greenwald.
Mas, para não alongar muito, o que há em comum em todos esses escândalos de corrupção à democracia, ao Estado de Direito e à autonomia dos países? Resposta: a ação imperialista e fraudulenta dos EUA.
Inclusive,  na operação Lava Jato: a ação sórdida dos Estados Unidos – que não respeitam nada daquilo que propagam aos quatro ventos – está fartamente documentada nas nada republicanas parceiras que membros do judiciário e do MP fizeram com órgãos historicamente intervencionistas dos EUA na dita operação.
Como se sabe, no caso da Lava Jato, essa operação (apesar de algum minúsculo combate à corrupção, para agradar moralistas sem moral e servir de discurso  para os golpista) resultou na realização dos interesses norte-americanos no Brasil, com esses “grandes feitos” (entre outros):
a) A destruição da indústria pesada nacional, inclusive a indústria do petróleo, abrindo as portas para corporações estadunidenses  e o “vamos privatizar tudo” do ultraliberal Guedes e sua patota banqueira;
b) Milhões de desempregados, que hoje se submetem a condições análogas à escravidão para conseguir trabalho; ou seja, a precarização do mercado de trabalho para a superexploracão dos “novos investidores” nessa neocolônia;
c) Destruição de laços de solidariedade social e da Constituição, com as “reformas” ultraliberais, via assunção da extrema direita no Executivo e no Parlamento;
d) Vassalagem do Brasil à nova política imperialista norte-americana;
e) Um Judiciário que de seletivo e encastelado se transforma a passos largos numa Justiça inquisitorial, de togados movidos por fanatismo religioso, ódio de classe e perversão moral, salvo exceções;
Os Estados Unidos – sempre tramando contra as democracias – são os grandes beneficiados da Lava Jato. Por isso, Moro et caterva continuam a ter o beneplácito de todos os golpistas, inclusive da Globo. Ele foi o testa de ferro dos EUA na parte internacional do golpe que propiciou o governo que transforma o Brasil numa colônia norte-americana.
Por outro lado, alguns jornalistas, hackers, militantes sociais e digitais – expondo as vísceras dessa política perversa norte-americana e seus atores bufos, como no caso da “vaza jato”, mostrando os vendilhões de uma Nação infiltrados nos poderes públicos – são os inimigos “número um” da horda no poder.
Isso deve ser terrivelmente odioso para os poderosos e seus capachos nesse momento.
E viva os hackers e os jornalistas independentes que honram a profissão!
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