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Pesquisa Datafolha

13/04/2016 15:07:21

A mídia, as “sete vidas” da jararaca e a narrativa do impeachment

 

Por Robson Sávio Reis Souza

Numa semana decisiva para a democracia brasileira, o Instituto Datafolha divulgou, em 09/04, mais uma rodada da “sua” pesquisa de intenção de votos à presidência. É muito estranho a publicização de uma pesquisa acerca de eleições que, pelas vias democráticas, ocorrerão daqui a três anos.

1. Muitos são os analistas a comentarem a estratégia do jornalão. Abaixo, algumas considerações sobre essa pesquisa:Pesquisa de intenção de voto reflete um determinado momento. Uma “fotografia” que muda, dependendo de uma série de variáveis conjunturais. Mas, vamos combinar: Lula continua um forte líder popular. Um político escorraçado pela mídia, pela justiça e pelos grupos de direita e, mesmo assim, consegue se manter na dianteira das intenções de votos. Seu capital político é invejável, para o desespero daqueles que querem destruí-lo a qualquer custo.

2. Aprendemos, nas ciências social e política, que “se manipulados, os números tudo confessam”. E, convenhamos: em relação ao jogo político em curso, manipulação tem se tornado, lamentavelmente, matéria-prima da mídia hegemônica. Vejam na imagem abaixo: na divulgação dos dados, a Folha manejou o próprio gráfico para mostrar em um de seus cenários Marina Silva DISPARANDO de 23% para 23% e Alckmin SUBINDO de 11% para 9%. Os editores deixaram o pobre do estagiário de artes gráficas numa situação vexatória. Mas, para quem gosta de jornalismo-panfletário, as trapaças sempre aparecem. A Folha corrigiu o gráfico depois dos comentários críticos nas redes sociais.

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3. Para todos os efeitos, a coalizão golpista (formada pela mídia, PSDB, DEM e PPS, os velhacos do PMDB, liderados por Cunha e agora, também, com Temer; além do grupo da “justiça”: Janot, Moro e Gilmar Mendes) aparentemente não logrou seu intento nas sagas persecutórias a Lula e na destruição simbólica do PT, pelo menos até agora. Pelo menos uma notícia boa: a opinião publicada já não domina tanto a opinião pública.

4. Mas, será que a pesquisa não tem como objetivo, entre outros, insuflar ainda mais os setores de direita incrustados na justiça, nesta semana decisiva para o impeachment, numa empreitada visando prender Lula de qualquer jeito com vistas a sepultar de vez suas pretensões futuras e/ou o PT? Isto porque, caso concorra, numa eventual cassação da chapa “Dilma-Temer”, pelo TSE, Lula teria condições reais de vencer as eleições e a direita poderia amargar mais oito anos longe do poder.

5. Outra possibilidade interpretativa: Lula pode estar ainda mais à dianteira nas intenções de voto, uma vez que as demonstrações de apoio popular e manifestações contrárias ao golpe têm aumentado nos últimos dias, incluindo protestos em vários outros países. E não dá para a mídia esconder tudo e o tempo todo; ou seja, a mobilização contra o impedimento de Dilma cresce.

6. Os números divulgados pelo Datafolha acendem um sinal vermelho para as oposições. Muito desacreditadas e com seus principais líderes despencando nas intenções de voto fica claro, no cenário atual que, se a chapa Dilma-Temer for cassada pelo TSE e, neste casco, havendo novas eleições, o favorito é a jararaca, porque tem capital político e experiência muito superiores a Marina Silva. Como disse a advogada do impeachment, a “doutora” Janaína, só mesmo uma intervenção das potestades celestiais para “nos salvar”.

7. Por fim, em todos os cenários possíveis da pesquisa, os tucanos (salvo no Texas brasileiro) não têm chances de vitória eleitoral. Ou seja, pelas vias democráticas dificilmente conseguirão assumir o poder no plano federal. Os bons moços, representantes dos homens e mulheres “de bens”, não convencem mais, sequer, parte dos eleitores de direita.

Mas, na ausência de notícias-bomba da Lava Jato a impulsionar o discurso golpista, como tradicionalmente ocorre nos finais de semana, a Folha preferiu desviar a atenção (e quem sabe a mobilização) do processo de impeachment de Dilma. Um processo que corre a passos largos respaldado num discurso higienista, conservador e elitista, segundo o qual os corruptos e os comunistas serão apeados do poder pelos “legítimos” representantes da corrupção, da intolerância e do fisiologismo.

E mesmo se Dilma não for impedida, o preço do golpe será o de colocar todos os setores progressistas na condição de reféns das artimanhas de uma direita não liberal nem democrática que domina o Parlamento, principalmente a Câmara dos Deputados. Seria cômico se não fosse trágico, um Golpe sendo arquitetado por corruptos e ladrões em nome da democracia.

A esquerda, meio atordoada, dá tiros para todos os lados. Os principais dirigentes petistas continuam arrogantes e acham que dominam o campo progressista. Ledo engano!

Não obstante, os seguimentos progressistas com a adesão dos movimentos sociais, das mídias alternativas e redes sociais dificultam a empreitada golpista. Montam um front de resistência democrática. Por mais que os segmentos poderosos imponham seus domínios, há sempre uma potência insurgente e revolucionária nas bases e essa força popular sempre reconstrói e dá dinamismo à história, revelando seus personagens e interesses.

Ou seja, se Dilma ficar, o mal menor nessa conjuntura dantesca, a direita não dará tréguas. A intolerância, o ódio, a vingança e outros fantasma que saíram do armário capitaneados por segmentos conservadores prosperarão até não se sabe onde e quando. Pelo menos, sem impeachment, as eleições e a escolha popular serão respeitadas.

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