Blog O cinema é

Crítica | Persuasão

30/07/2022 18:56:15

Mesmo funcionando, longa é um eco fraco do texto em que foi baseado.

persuasão
© heli5m via TMDb. Todos os direitos reservados.

E então surgiu Persuasão, adaptação cinematográfica homônima de mais uma das histórias de uma das mais celebradas autoras de todos os tempos, Jane Austen, conhecida por sua percepção visionária, coragem e, principalmente, por suas protagonistas femininas fortes, que encontram grande aceitação até hoje, mais de duzentos anos depois de sua morte.

A trama da película gira em torno de Anne Elliot (Dakota Johnson), uma mulher de nascimento nobre que se apaixona por um homem, mas é persuadida a deixá-lo em razão de sua origem humilde. No entanto, oito anos depois, ele retorna, bem sucedido e rico, e fica a dúvida sobre a possibilidade da retomada da relação.

Como a grande maioria dos romances de Austen, Persuasão é bastante celebrado pelos fãs da escritora que, apesar disso, não gostaram nem um pouco da versão feita pela Netflix.

Seria, então, a obra tão superficial e inexpressiva como foi taxada? A resposta é relativa. Depois de ter lido vários comentários do público acerca da película, tenho certeza de que, para a base de leitores da autora, o longa não passou de uma grande decepção. E essa é a grande questão de quem tem a história em sua forma original guardada na lembrança e no coração. De quem tem decorada aquela passagem literária marcante que não é retratada de forma satisfatória no filme. De quem conhece muito bem os personagens queridos da história.

E o que esses fãs mais questionaram foi a simplificação fraca que a diretora Carrie Cracknell e seus roteiristas fizeram do texto rico de Jane Austen. Foi este o maior pecado cometido, um erro imperdoável que, realmente, não dá para justificar.

Entretanto, aqueles que, como eu, não leram o romance, verão o quadro de outra forma. Quando assisti ao Persuasão da Netflix, não tinha nenhum pré-conhecimento acerca da trama e muito menos dos personagens, suas personalidades, bem como da descrição de sua aparência e sentimentos. Minha decepção, portanto, não chegou nem perto daqueles que tinham esse “pré-conceito”.

Portanto, para mim, o filme conseguiu passar o essencial de Jane Austen, ou seja, sua delicadeza e ingenuidade aparente. Mesmo com a quebra da quarta parede, que incomoda um pouco, a película funciona bem, simples, com poucas firulas, planos bonitos e, principalmente, o bom trabalho de Mia McKenna-Bruce, que interpreta Mary, uma das filhas do Sr. Elliot, com quem dá para se divertir bastante, e de Dakota Johnson que, se não conseguiu ser a Anne do livro, não teve culpa nenhuma. O roteiro, ou mesmo a direção, seriam os únicos a que se culpar.

Por outro lado, sou obrigada a concordar que, se comparado a outras adaptações dos clássicos de Austen como Razão e Sensibilidade (Ang Lee, 1995) e Orgulho e Preconceito (Joe Wright, 2005), Persuasão fica bem fraco. Chega até ser engraçado comparar o galante Mr. Darcy de Matthew Macfadyen em Orgulho e Preconceito, com o insípido Wentworth de Cosmo Jarvis em Persuasão. É aí que o olhar, mesmo que mais brando, começa a se questionar sobre a obra que, inegavelmente, é sim uma simplificação, apenas um eco debilitado do texto em que foi baseado.

Uma lástima, mas, apesar de tudo, Persuasão vale sim uma olhada, principalmente para quem não conhece ou conhece pouco sobre Austen, porque, afinal, é preciso lembrar que estamos falando, como já mencionado, sobre uma das maiores romancistas que já passaram por este planeta.

Comentários